/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/R/g/jbdv7kRKSMvCWX8RBsaQ/113428047-this-image-posted-on-us-president-donald-trumps-truth-social-account-on-january-3-2026-sh.jpg)
Pensamento de Trump para a política externa dos EUA 'segue uma lógica caótica', afirma especialista
Gustavo Macedo, professor do Ibmec, cita pouco apreço do republicano pelas normas internacionais, e aponta para chance de turbulências na transição venezuelana
Por
05/01/2026 00h00 Atualizado há 10 horas
Cerca de um mês antes de invadir a Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro, o governo de Donald Trump ressuscitou, na forma de sua nova estratégia de segurança nacional, a Doutrina Monroe, do Século XIX, que declarou o Hemisfério Ocidental (leia-se, as Américas) como sua esfera de influência. Nas décadas seguintes, com a doutrina em mente, os EUA realizaram intervenções, apoiaram golpes de Estado e pressionaram pela saída de regimes que não lhes agradavam. Mas nenhum presidente havia atacado um país da região como o fez Trump na madrugada de sábado, e declarado de maneira tão explícita que o objetivo não tinha a ver com democracia, segurança coletiva ou autodeterminação, mas sim com petróleo.
Em entrevista ao GLOBO, Gustavo Macedo, professor de Relações Internacionais no Ibmec, aponta que ainda é cedo para cravar uma Doutrina Trump, mas que algumas características dela já estão benm claras: o desrespeito às normas internacionais, o pouco apreço a pactos regionais e, acima de tudo, a lógica caótica das decisões do republicano, que pegam seus próprios aliados de surpresa.
É impossível não notar alguns elementos similares a outras doutrinas históricas dos EUA. A Monroe, sobre a América Latina como área de influência de Washington, e a Bush, no pós 11 de Setembro, com mudanças de regime e o foco no petróleo. Já podemos falar em uma Doutrina Trump?
Não sei se já podemos cravar essa doutrina agora, mas ela seria, na minha opinião, marcada por instabilidade e caos na forma como Trump administra as agendas de segurança. Ele não tem uma seleção clara e princípios pré-definidos de como lidar com as situações, e frequentemente as pessoas em Washington são pegas de surpresa. Ela também é marcada pelo desrespeito com relação às regras tradicionais do sistema multilateral, do direito internacional consolidado desde a Segunda Guerra Mundial e particularmente em relação ao Estatuto de Roma (base do Tribunal Penal Internacional). A Carta da ONU diz que apenas o Conselho de Segurança tem a prerrogativa de autorizar uma ação armada, e ela foi desrespeitada aqui. O pensamento de Trump segue uma lógica caótica.
E esse desrespeito às normas ficou particularmente evidente porque foi uma ação na América Latina, a primeira desse tipo dos EUA na região…
Nós temos um princípio antigo, o da não intervenção, que vem de uma tradição diplomática criada em meados do Século XIX, codificada com a Doutrina Calvo (de 1868) e a Doutrina Drago (de 1902), e da qual o Brasil, através de Ruy Barbosa, também foi um grande defensor. Esse princípio pressupunha justamente que os países da América Latina respeitarem a inviolabilidade e a autodeterminação dos povos, inicialmente contra as potências europeias e depois internamente. Vemos que Trump hoje joga isso tudo pela janela.
Na entrevista coletiva de sábado, a primeira após o ataque, Trump não falou de democracia, mas não economizou nos comentários sobre o petróleo e sobre como quer explorá-lo. Quanto a isso, ele parece ter bastante certeza…
Ele já havia falado anteriormente sobre o interesse do governo americano no petróleo da Venezuela, que tem as maiores reservas do mundo. Na entrevista, ele deixou claro que quer que os EUA governem a Venezuela até que seja feita uma mudança de regime favorável aos EUA, e que eles vão comercializar o petróleo. O que chama a atenção é que Trump, ao contrário de outros presidentes, que jogam mais com a linguagem da diplomacia, Trump se expõe demais, talvez mais do que seus aliados gostariam. No primeiro momento, a narrativa era de combate ao narcotráfico, o que não é verdadeiro, porque se o problema fosse o narcotráfico, outros países deveriam ser prioridade, como a Colômbia e o México, e não necessariamente a Venezuela. Depois eles mudam a história, citando o petróleo, mas usando uma série de adornos, afirmando que querem ajudar o povo venezuelano a restaurar a democracia, defender os direitos humanos etc.
Trump disse que quer comandar a Venezuela até a transição, mas não se sabe como será o processo político no futuro próximo, se os chavistas permanecerão no comando ou se uma liderança aprovada pelo trumpismo assumirá. De qualquer forma, esse novo governo terá legitimidade no cenário internacional?
Temos que entender primeiro qual será o ato que criará esse pacto de governança. Houve uma intervenção ilegítima, ilegal, tipificada como um crime internacional, com os EUA invadindo a Venezuela, sequestrando uma liderança política e a levando para seu país, onde será julgado pelas leis americanas por um tribunal americano. No momento, a vice-presidente assumiu, mas podemos esperar uma série de contestações nos próximos dias, com grupos divergentes tentando ocupar o poder, e não sabemos exatamente quanta força ela tem para seguir no cargo. A oposição pode tentar reagir, e aí existe o risco de um ciclo de guerra civil, com uma possível fragmentação do poder. Neste cenário, parte da comunidade internacional pode não reconhecer o resultado deste governo instalado. China e Rússia, por exemplo, podem não ver como legítimo um governo apoiado pelos EUA. O fato é que entramos em uma situação de absurda instabilidade política em nossa região.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/7/7/Hfxi9UQmmh6kzUugRnLA/113431773-files-venezuelas-vice-president-delcy-rodriguez-speaks-during-the-presentation-of-the-202.jpg)
O senhor citou China e Rússia, aliados de Caracas que condenaram a invasão, pediram reunião no Conselho de Segurança, mas não fizeram muito para socorrer Maduro nos meses que a antecederam. O discurso oficial é de repúdio, mas o senhor acredita que, nos bastidores, o ataque não foi exatamente uma má notícia?
Eu entendo que enquanto os EUA jogam pôquer, China e Rússia jogam xadrez, elas pensam em movimentos mais à frente. Os países farão declarações mais firmes, mas não há qualquer chance de que decidam se envolver na Venezuela, até porque primeiro precisam entender como seus interesses econômicos na região serão afetados, em uma manobra que deve ser articulada com os americanos. Do ponto de vista geopolítico, os russos entendem que a ação reforça o que vêm fazendo na Ucrânia: quando os EUA dizem que na América Latina quem manda são eles, Moscou entende que é um argumento que também pode ser usado para a Ucrânia, e Pequim também o entende como um argumento a ser usado em outras regiões, como Taiwan. Estamos diante de um momento em que boa parte da comunidade internacional vai contestar a invasão americana, mas com os países que têm mais força para pressionar os EUA entendendo que podem se beneficiar dela.
Fonte:https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/05/pensamento-de-trump-para-a-politica-externa-dos-eua-segue-uma-logica-caotica-afirma-especialista.ghtml
Comentários
Postar um comentário