CRÍTICA À PUBLICIDADE DA MALDADE E SEUS CONSUMIDORES

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(James Holnes, assassino do caso de julho no Colorado)


Crítica a publicidade da maldade e seus consumidores 


Até onde vai a maldade, ou até onde vai o homem? Até que ponto se pode distanciar dos grandes psicopatas e serial killers, para julgá-los moralmente em um noticiário? Ao refletir sobre essas questões nos deparamos com nossa atroz condição humana: Somos maus, e desejamos o mau, nem que seja apenas para olhá-lo. 
Historicamente a maldade ocupa um lugar sempre atribuído ao outro. O Bem, retentor do discurso competente, se auto-atribui a posse das verdades sobre o mal, tornando-se seu juiz. Todavia esse suposto Bem, com seus veredictos e julgamentos esquematicamente elaborados, não se deu em nenhuma transcendência metafísica, – na prática, foram sempre homens julgando homens. Então me pergunto: Seria a maldade em potencial exclusiva de alguns? Ou seria melhor pensar em níveis de barreiras psíquicas, que impedem uns de serem piores do que outros no convívio social? 
A imprensa e a mídia audiovisual através dos telejornais são hoje mundialmente os maiores veiculadores da perversidade humana. Existem inclusive estudos longitudinais que apontam para uma possível influência negativa no comportamento de crianças, que desde tenra idade são contaminadas com esse seguimento televisivo. Diariamente diante de nossos olhos se ergue uma gama de possibilidade de notícias, que das formas que são elaboradas e veiculadas, poderiam ser elevadas a uma categoria de publicidade da maldade. Sendo elas produzidas de maneira tendenciosa e manipulativa para servirem a grande massa, consumidora de tragédias. A partir daí, grandes discussões e manifestações sociais irrompem em torno de pessoas que tem suas vidas e suas maldades expostas, da forma como cabem os produtores desse tipo de informação. 
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As consequências? Um jornalismo pobre culturalmente, e engalfinhado em produzir um material altamente erótico e violento. Um erotismo pérfido, que captura o sentido da visão. E o grande rebanho se põe a satisfazer suas pulsões escópicas, sentados em seus sofás diante das telas de vidro, que lhes exibem as imagens-notícias, que lhes servem de estímulo necessário para os relances de prazer inconsciente, diante do trágico que acometeu o outro. E todo este jogo de sedução voyeurista da imagem vendida pela industria cultural, não tem chance de se tornar consciente, nem sequer pode ser refletido, dado o julgamento moral que se segue em discurso. Gozasse sadicamente, em ver e falar sobre o sofrimento do outro. Nestas condições qualquer autonomia de pensamento é facilmente anuviada. 
Mas, para além dessa analítica em certo ponto complexa para leigos, de todos os processos inconscientes deste jogo obscuro com a imagem do outro, o que me cabe neste artigo é fomentar a discussão ética. Pois os consumidores deste tipo de produto-notícia são pessoas aprisionadas na posição de julgamento, que vêm quase sempre disfarçado por indignação e se acopla em uma insuficiência na autocrítica e na autoanálise diante do que é visto.
Após uma notícia como: “Menina de nove anos que após ser estuprado é morta por um senhor de 43”. Sejam em chamadas de vídeos ou manchetes, com anúncios sempre sensacionalistas em sua execução, que longe de qualquer compadecimento com sofrimento do outro, busca uma venda de uma audiência em massa, os consumidores desse tipo de produto iniciam seus pronunciamentos calcados moralmente. “Que horror! Um velho safado desses deveria sofrer como um animal. Ser amarrado em uma árvore, e nele deveriam ser abertos cortes sobre a pele com uma faca bem afiada. E que ele ficasse lá amarrado para que os bichos se alimentassem de sua carne viva”. Temos aqui um exemplo de discurso altamente sádico com requintes de crueldade, e não é de minha invenção, eu o ouvi pessoalmente. E normalmente o julgamento popular dos infratores pelos moralistas se mantém nesse nível, em uma realização fantasiosa da maldade que se tem reprimido em si.
Sim, somos todos maus, a única e essencial diferença é que em alguns a maldade não resiste a nenhuma censura, ela irrompe sem qualquer bloqueio, não existe a alteridade, o Outro. E mesmo em nós neuróticos, que nos arrependemos do que fazemos, a maldade está primitivamente enraizada. E muitas vezes nos vemos a fazer coisas em ato, que nosso discurso jamais diria que seriamos capaz de fazer. Este é lado negro de uma força criativa, que nos diferencia dos animais, e que sublimada nos permitiu constituir cultura e civilização.
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Pensando nesses níveis de maldade humana, me recordo de um psiquiatra forense, Michael Stone, que postulou um índice da maldade. Apesar de ter-se rendido a indústria televisa americana, no qual ele apresenta um programa em que perfis de vários assassinos, serial killers e psicopatas, são analisados por ele e classificados em sua escala hierárquica da maldade. Gosto da abrangência dos níveis, que já no primeiro inclui os que matam em legítima defesa. Este é um ponto interessante, pois até que ponto minha maldade deixa de ser maldade mesmo quando mato em legítima defesa, tanto de mim ou de alguém que tenho apreço? Ou seja, a maldade nos é útil para sobrevivência, e dos que queremos bem. Seguindo os níveis sucessivamente os agravantes da maldade podem chegar ao nível 22, donde a classificação se daria para psicopatas assassinos-torturadores, onde a tortura é a principal motivação (na maior parte dos casos, o crime tem uma motivação sexual, mesmo que inconsciente).
Em algum nível todos desejamos o mal, mesmo que não o cometamos. Temos sim, nossas maldades de cada dia. E por mais que elas nunca cheguem a repercutir como notícia pela mídia, ela, – a maldade –, nos atravessa em nossa condição de ser humano. Diferente dos animais irracionais que matam por instinto (fome), nós homens matamos por desejo, seja na realidade ou na fantasia.

Fonte:
© obvious:http://lounge.obviousmag.org/embriaguez_artistica/2012/10/

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